"Imigração Japonesa:Brasil-Japão:
balanço e perspectivas"
O Estado de S. Paulo
21 de janeiro de 2008
André Amado
As comemorações dos 100 anos da imigração
japonesa constituem o momento ideal para fazermos um balanço e
avaliarmos as perspectivas das relações com nosso mais tradicional
parceiro na Ásia. Por mais que se amplie o intercâmbio do
Brasil com outros países da região - fenômeno no interesse
de todos, diga-se -, é no Japão que continuamos a encontrar
o traço marcante da contribuição para a formação
da identidade nacional e da cultura brasileira. Essa presença pode
ser percebida com mais facilidade em São Paulo ou no Paraná,
mas, mesmo quando não a notamos, permeia a vida de todos nós
brasileiros - do Rio Grande do Sul ao Amapá.
Em 1908, com a chegada do “Kasato Maru” a Santos, começava
o processo que, impulsionado pela visão e pelos esforços
dos dois governos, viria a transformar o Brasil no maior destino de imigrantes
japoneses em todo o mundo. Entre as décadas de 1950 e de 1970,
coube novamente ao setor público papel decisivo no lançamento
de projetos econômicos cruciais ao desenvolvimento de ambos os lados.
O Brasil recebeu investimentos e cooperação técnica,
ao passo que o Japão ampliava sua inserção internacional
no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Nas décadas
de 1980 e de 1990, dificuldades econômicas em ambos os países
impediram que o potencial do relacionamento bilateral continuasse a ser
aproveitado da forma devida. É exatamente nesse período,
no entanto, que teve início o fluxo de cidadãos brasileiros
para o Japão. Hoje, eles somam mais de 312 mil, o terceiro maior
contingente de estrangeiros no território japonês.
O legado dessa “imigração de duas mãos”
e os vínculos econômicos criados há quase meio século
formam patrimônio sem paralelo entre um país latino-americano
e um país asiático. Cabe agora aos governos - e também
às sociedades - a liderança na redinamização
do relacionamento bilateral e a consolidação de parceria
verdadeiramente estratégica entre o Brasil e o Japão, à
altura de todas nossas inúmeras convergências e complementaridades.
Os governos vêm fazendo sua parte. As visitas do então primeiro-ministro
Junichiro Koizumi ao Brasil, em setembro de 2004, e do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva ao Japão, em maio de 2005, abriram
nova etapa da relação - alicerçada no plano político
por iniciativas como a do G-4 (para a reforma do Conselho de Segurança
das Nações Unidas) e no econômico-tecnológico
pelos biocombustíveis e a televisão digital.
Aos poucos, o Brasil vai adquirindo outra qualidade aos olhos das autoridades
e da sociedade japonesa. Além da popularidade do conceito dos “BRICs”
(o grupo de “grandes países emergentes” composto também
por Rússia, Índia e China) no Japão, contribuíram
para alcançarmos patamar mais elevado a recente aquisição
da empresa japonesa Nansei Sekiyu pela Petrobrás, a primeira grande
venda de aviões da Embraer para o mercado japonês e, como
mencionei, a associação no campo da TV digital (o Brasil
é, por enquanto, o único outro país a utilizar o
padrão ISDB-T e trabalha com as autoridades japonesas para sua
expansão na América do Sul).
A comunidade brasileira no Japão continua a crescer, embora em
ritmo menos acelerado e com perfil em alteração. Hoje, há
mais crianças e jovens em idade escolar. Há também
mais mulheres. Há mais “sanseis” (descendentes de terceira
geração) e brasileiros não descendentes. Os brasileiros
permanecem por mais tempo em território japonês. Em outras
palavras, a comunidade está se tornando mais variada e complexa
- e o mesmo ocorre com suas demandas.
O quadro é favorável para o fortalecimento da parceria entre
o Brasil e o Japão. Mais do que a simples da louvação
da data, o ano de 2008 tem de prestar-se a avanços concretos: da
revitalização do relacionamento econômico - com o
aumento do fluxo de mercadorias, capitais e tecnologias - à obtenção
de melhores condições para a comunidade brasileira no Japão.
Da perspectiva da Embaixada do Brasil em Tóquio, as comemorações
do centenário devem render homenagem aos brasileiros em solo japonês,
descendentes ou não dos passageiros do “Kasato” e de
tantos outros “Marus”, que muito necessitam de apoio em áreas
como educação, previdência social e cooperação
judiciária. Suas aspirações e necessidades serão
o foco de programação articulada em torno de três
proposições centrais: elevar o nível de vida dos
brasileiros, revelar e reforçar a integração entre
as duas sociedades e mostrar o Brasil que os japoneses ainda desconhecem.
Trata-se, enfim, de reforçar o sentido de brasilidade e renovar
o orgulho de ser brasileiro. Não podemos desperdiçar esta
oportunidade ímpar para estreitar os laços entre os imigrantes
e sua terra natal, tentando, ao mesmo tempo, ajudá-los a recuperar
parte daauto-estima perdida diante dos múltiplos problemas enfrentados
no ambiente de trabalho e na vida em geral no Japão.
É fundamental, portanto que o centenário da imigração
ofereça resultados tangíveis não só no plano
econômico, mas também no da comunidade. Nunca é demais
recordar que a abertura da sociedade brasileira permitiu que, em menos
de 100 anos, descendentes de imigrantes japoneses ocupassem cargos no
topo do Judiciário, do Executivo e do Legislativo. Há “nikkeis”
no Congresso Nacional, no Superior Tribunal de Justiça e, mais
recentemente, no comando de uma das Forças Armadas.
Em 2008, o Japão terá a oportunidade de melhor conhecer
esse extraordinário modelo de integração - e nele
poderá se inspirar.
* André Amado é o embaixador do Brasil em Tóquio.
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